domingo, 9 de fevereiro de 2014

POEMA DE MYRTES MATHIAS

Mãos Que Sustentam Cordas

 Myrtes Mathias
 



Nessa hora de lembrança e gratidão,
eu me lembro das mãos que sustentam as cordas
dos que descem ao fundo das minas
e dos mares, em busca de tesouros.

Há uma dignidade santa nessas silenciosas mãos,
nem sempre lembradas quando surgem os tesouros:
a alegria é tanta que pouco tempo resta
para pensar naqueles que realizaram um papel
injustamente considerado de menor valor.

Benditas mãos que talvez nunca cheguem
até onde chega a bênção de sua dádiva.
Ignoradas, diligentes, incansáveis mãos
de professoras, funcionários, estudantes,
operários, donas de casa;
frágeis mãos de crianças, que engraxam sapatos,
vendem laranjas, colocam moedas num porquinho
de plástico para dar uma oferta bonita no
Dia Especial.

Também elas se ferem,
cobrem-se de calos, passam a ostentar
as gloriosas cicatrizes que o esforço
confere como uma condecoração.

Para que citar nomes, se isto não as tornaria
mais felizes que o prazer de servir,
que as levou a passarem horas segurando uma pena,
preparando lições, tricotando casaquinhos de lã,
batendo bolos, pedalando uma máquina de costura
e até se estendendo para pedir emprestado
porque a Obra é urgente e esperar não pode.

Para que citar nomes que Deus já tem escrito
no eterno Livro com letras de ouro?

Nesse instante de lembrança e gratidão,
em nome dos doentes que serão curados,
das crianças que aprenderão a ler,
dos bebês vestidos e alimentados,
das almas simples que se encontram com Jesus,
dos trabalhadores da seara que receberão
no fim do dia o seu salário;
em nome dos irmãos humildes, que nos atalhos
distantes do sertão, à luz do luar ou das lamparinas
caminham com passos ligeiros
em direção do templo novo,
pintado de branco,
para louvar a Deus,
eu me ajoelho para agradecer as silenciosas
e ignoradas mãos que sustentam as cordas
para que os enviados possam descer ao vale,
em busca do tesouro que são as almas dos homens.
 






quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

HOMEM DE DEUS?



PASTOR,

VOCÊ É UM HOMEM DE DEUS?

“Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus”. (1Co 4.1)

“Pastor, você é um homem de Deus?”

Esta pergunta foi ouvida por um pastor quando este chegara ao hospital para visitar uma senhora enferma, a pedido de um membro da igreja onde pastoreava. Na verdade, a mulher sabia que aquele homem era um pastor, porém sua pergunta era mais profunda e por isso precisamos refletir sobre ela ainda hoje. As pessoas não estão muito preocupadas em saber se você é um pastor, um mestre de teologia ou um doutor, mas precisam estar absolutamente seguras de que aquele que lhes fala desde o púlpito, é um verdadeiro homem de Deus.

        Minha conversão ao evangelho ocorreu em 1972, quando participava de um culto numa pequena igreja de língua alemã, no interior do Rio Grande do Sul. A mensagem fora toda em alemão e eu não entendia nada do que o pregador falava, mas o Espírito Santo operou de forma tão poderosa em minha vida que de repente me encontrei de joelhos diante do altar em lágrimas, desejando uma nova vida. Descobri o quanto era pecador e queria ter meus pecados perdoados, meu coração limpo pela Palavra de Deus.

         Foi muito emocionante essa experiência com Deus, mas ainda não era uma rendição total. Deus me chamava para ser um pregador, mas meu coração estava endurecido para Sua voz. No entanto, em 1976, numa convenção da CIBI realizada em Brasília-DF, o Senhor atuou extraordinariamente em mim, acabando com toda a resistência. Desta vez meus joelhos se dobraram numa entrega total ao meu salvador e senhor. Imediatamente cancelei a matrícula na faculdade, pedi demissão da empresa que trabalhava, e comecei a preparação para ingressar no seminário com o fim de ter preparação teológica.

        Por essa minha atitude muitas pessoas me chamaram de louco, outros de inconsequente, e alguns brincavam dizendo que fui enganado por uma cigana. e por isso alguns me chamaram de louco, outros de inconsequente. Todavia, o que me importava era que meu coração transbordava de paz e se deixou inundar de amor pelos perdidos.  

 Lembro-me que no dia três de março de 1977 sentei-me emocionado no primeiro banco da capela do seminário para assistir a aula inaugural, cheio de emoção.

        “Vocês são bem vindos a esta «Casa de Profetas»”, disse o diretor. Meu peito ardeu ao impacto destas palavras, embora não compreendesse ainda seu real significado.
        Iniciei na biblioteca minhas atividades de estudante. Eu queria saber o que significa ser um profeta do altíssimo, e descobri algo maravilhoso, que produziu em mim um impacto tremendo e grande responsabilidade. A função do profeta é declarar aos homens a Palavra de Deus (Dt 18.15-19), isto é, ele não pode aparecer diante dos homens sem ter passado antes pela presença de Deus (1Rs 17.1; 18.15). é nisso que reside sua autoridade para declarar “Assim diz o Senhor”. Meu pastor havia me ensinado alguma coisa sobre homilética, a “arte de pregar”, mas, naquele momento, compreendi que a responsabilidade do pregador vai além da atividade de enunciar um sermão bem elaborado.

Tornei-me um pregador! Esta gloriosa tarefa enche meu coração de profundo temor de Deus e responsabilidade com Sua Palavra. Deste o tempo de minha preparação ministerial e dentro destes 30 anos de ministério minha vida e mensagem foram profundamente abaladas e motivadas pelo texto de Ezequiel 2.1-7, que pode ser reduzido na seguinte frase: “Filho do homem, tu lhes dirás as minhas palavras, e eles, quer ouçam, quer deixem de ouvir, hão de saber que esteve no meio deles um profeta”.

Escrevi um livro com este título no desejo de oferecer a novos pregadores orientação simples e prática para que possam preparar suas mensagens tendo a Bíblia com único e insubstituível manual.

       Dói meu coração observar os rumos da pregação na atualidade. O púlpito tem sido maculado, algumas vezes por uma pregação vazia, carente de fundamentação bíblica, e outras vezes por pregadores que, apesar de certo conhecimento bíblico, desconhecem as principais regras da homilética e acabam por isso perdendo a atenção do auditório, quer pela falta de uma adequada organização do sermão como pela falta de criatividade ou eloquência, e, outras vezes, o que é pior, por homens que torcem o sentido das escrituras para satisfazerem seus próprios interesses.

         É muito grande a responsabilidade daquele que se apresenta para pregar a palavra de Deus, por que na sua tarefa ele desenvolve pelo menos três funções muito importantes:

A primeira função é A função profética, que é declarar aos homens, custe o que custar, a Palavra de Deus (Ez 2.1-7; Dt 18.18-20). Muitas vezes os profetas deviam ser inflexiveis com o pecado e isso nem sempre é agradável. Assim como os profetas muitas vezes foram perseguidos por causa de sua mensagem um pregador deve estar disposto a arcar com as consequências de sua mensagem e não pode vacilar.

A outra função do pregador do evangelho é a função pastoral. Há uma singular compatibilidade entre mensagem e vida, e o pregador deverá praticar na congregação sua mensagem, alimentando as ovelhas, indo atrás da desgarrada, mostrando amor e responsabilidade.

Por último, o pregador tem também uma função sacerdotal. O sacerdote tem a missão de abençoar (Nm 6.23,27), interceder diante de Deus e oferecer os sacrifícios pelo pecado do povo (Nm 18.1,5,7). Além disso, de acordo com o Velho Testamento, ele é aquele que toma conta do tabernáculo, tendo o cuidado de acender e conservar acesas as lâmpadas do santuário (Ex 27.20,21; Lv 24.3,4); e manter sempre aceso o fogo do altar (Lv 6.12,13).

Esta é uma analogia muito preciosa daquilo que se espera de um ministro do evangelho. A igreja do século XXI precisa verdadeiros homens de Deus, pessoas que como os profetas denunciem os problemas das comunidades; como os sacerdotes ministrem ao coração do homem e façam intercessão por seus pecados e como pastores dispensem o cuidado e orientação necessários para uma vida completa. A igreja transformadora deve fazer a vontade de Deus e os pastores são os responsáveis para que ela cumpra sua missão.

Muitos falsos mestres surgem hoje trazendo um evangelho utilitário, falando apenas as coisas que o povo quer ouvir, mas ouça o recado de Paulo dado ao seu filho Timóteo, capítulo dois:
“Tu porém, permanece naqulo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste (3.14); prega a palavra, insta, quer seja oportuno quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina, pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina, pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos” (4.2,3).

José Aldoir Taborda 

domingo, 30 de dezembro de 2012

UMA QUESTÃO ÉTICA





AQUI JAZ 
DONA ÉTICA

  "Aparte-se do mal, pratique o que é bom, busque a paz e empenhe-se por alcançá-la" (1Pe 3.11).
   

     Um cristão envolveu-se num acidente automobilístico, onde viu-se claramente que a culpa era sua, ocasionando grandes prejuízos à outra parte. O policial que fez a ocorrência fez os apontamentos necessários e encaminhou o assunto para ser decidido perante o juiz.
       
      O cristão consultou um advogado que era muito astuto e pouco escrupuloso. O advogado revisou cuidadosamente a citação e descobriu um erro de apontamento na data, e, diante do juiz, chamou ao policial como testemunha perguntando-lhe:
- Senhor, onde ocorreu o acidente?
        - Na esquina da avenida Brasil com Coronel Toledo, respondeu.
        - Foi o senhor que preencheu este documento?
        - Sim, senhor.
     - Pode ler, por favor, sua anotação sobre a data e horário da ocorrência?
                - 24 de abril, às 15 horas, leu o policial.
O advogado, virando-se para o juiz, diz-lhe: “Meritíssimo, segundo os apontamentos feitos pelo policial, meu cliente esteve supostamente envolvido num acidente automobilístico no dia 24 de abril, mas lhe asseguro que isso é impossível, pois nesta data o mesmo encontrava-se em outra cidade, como pode observar nestes comprovantes. Peço que arquive o processo”. O juiz não teve outra saída.

Aquele cristão saiu de um apuro devido a um erro de anotação. Ele sabe que é culpado, o policial sabe que ele é culpado, o dono do outro veículo, sabe que ele é culpado, mas ele foi para a igreja dar testemunho de como Deus o livrou.

Isso pode parecer muito inteligente e muito bom para a economia financeira, mas na verdade é algo sujo, traiçoeiro. Jamais pode ser considerado como um testemunho do livramento do Senhor. Assim é o caminho dos ímpios, dos pecadores. Beneficiam-se do nome do Senhor para justificar atos escusos.

Por muito tempo vivi na inocencia de que os crentes são diferentes das pessoas incrédulas, mas descobri que em nossa época o princípio é não ter princípios. A história acima é verídica e muito mais comum do que supomos. 

O que me preocupa é a vulnerabilidade que muitos líderes evangélicos tem demonstrado nesta época quando a bênção principal buscada pelas pessoas é a prosperidade financeira e não mais a salvação dos pecadores. 

Vimos na TV homens crentes recebendo dinheiro claramente de corrupção e orando ainda pelo corruptor, pedindo que Deus o abençoasse mais e mais. Quando vamos aprender que receber dinheiro nem sempre é bênção?

Quando fico pensando no personagem de nossa história, me pergunto: por qual razão ele buscou um advogado inexcrupulosopara ajudá-lo neste momento difícil  em lugar de buscar a ajuda de Deus e cumprir com sua obrigação de ressarcir o prejudicado?

Mas esse tipo de atitude não tem espaço na maioria dos cristãos modernos, numa época em que os valores são desvalorizados, que os princípios não passam de meios para atingir seus fins, que a virtude é apenas força de expressão e a aparencia substitui a prática.

É impossível não lembrar a primeira vez que entrei numa igreja evangélica. Era uma diferença tão grande do mundo em que eu vivia que logo eu senti o desejo de viver assim: longe do pecado, dos vícios, das mentiras, dos namoros impróprios. Lembro que as pessoas choravam por terem pecado. Algumas, envergonhadas, não vinham mais na igreja, e outras vinham chorando arrependidas e pedindo perdão.
      
     Que pena que tudo mudou tanto... a espiritualização ocupou o lugar da espiritualidade, a banalização o lugar da profundidade,  a insinuação o lugar da realidade, a falsificação o lugar da verdade.

É tempo de recomeçar a viver de acordo com os princípios morais ensinados por Jesus. Nós somos sal da terra e luz do mundo, chamados não apenas para sermos diferentes mas para fazermos diferença no meio de uma sociedade corrupta.

Acredito que é possível permanecer verdadeiro num ambiente onde a mentira medra, ser uma ilha no mar da falsidade. Precisamos apenas compreender que estar no mundo não significa ser do mundo e assumir a postura de filho de Deus, inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta.

O apóstolo Paulo disse aos romanos: "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação de vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.1,2).


Pr. José Aldoir Taborda